Civilizados, nós?!
Ainda haverá barbárie enquanto a vida coletiva não estiver pautada na lei de justiça, amor e caridade e a moral de Jesus Cristo não for a moral de cada ser humano sobre a Terra. Tanto quanto possam ser os avanços científicos e tecnológicos, não teremos o direito de nos dizer civilizados enquanto não tivermos banido todo rastro de egoísmo, orgulho e de todos os vícios que nos desonram diante de Deus. Menos direito teremos, ainda, de julgar bárbaros aqueles cujos hábitos sociais se distinguem dos nossos.
Mas, então, por que o fazemos? Por que assumimos ares de civilizados e depreciamos culturas julgadas por nós como selvagens? Pensemos.
A civilização pode ser definida como um conjunto de aspectos peculiares da vida coletiva de uma época, região, país ou sociedade. Ela se relaciona à fixação dos agrupamentos humanos nas cidades, daí a origem do nome. Envolve práticas e hábitos da vida coletiva, ligados à economia (relações de produção e consumo); à política (na legislação e execução das leis que organizam a vida social); às artes (em todas as suas distintas expressões e linguagens). Enfim, civilização relaciona-se com cultura de um modo geral e sua ingerência sobre os relacionamentos.
Do ponto de vista evolucionista, a civilização é o ápice do desenvolvimento de um povo. O conceito evolucionista - deturpado por uma ótica de poder hierárquico - permitiu, porém, interpretações etnocêntricas para o sentido de civilização o qual passou a ser apresentado por comparação. Daí, a ideia de povos bárbaros em oposição a povos civilizados. Essa compreensão ampliou o abismo entre os homens e serviu de justificativa para incontáveis guerras e invasões… Atrocidades mil que marcam de sangue e ódio a história da humanidade na Terra.
Um olhar ligeiro pelo nosso caminhar histórico, leva-nos até os momentos áureos da Grécia e, posteriormente, de Roma, com suas invasões a regiões da Ásia e África sob alegativa de serem terras de bárbaros. Já na idade moderna, recorda-se de toda a chamada colonização europeia na América que dizimou de maneira extremamente atroz inúmeros povos nativos. Até hoje, o discurso civilizatório ecoa. Por sinal, neste ano, "entrar na civilização" foi a justificativa dada pelo governo federal, para tentar legitimar a intenção de diminuir e até acabar com as demarcações das terras indígenas no Brasil.
Diante desses abusos de poder - afinal, tais povos ditos civilizados tinham, têm, a seu favor um desenvolvimento tecnológico (inclusive bélico) maior do que daqueles que foram e são oprimidos -, muitos pensadores criticavam à época de Kardec (e ainda criticam hoje em dia) o termo civilização, associando-o à desgraça para a humanidade. Suponho que tais embates inspiraram Allan Kardec - um homem que vivia o seu tempo! - a refletir sobre o tema e dedicar algumas questões em O Livro dos Espíritos e em outras obras que publicou.
No capítulo sobre A Lei do Progresso, as questões 790 a 793 formam o tópico Civilização. Há mais referências ao tema em outros capítulos: ao falar sobre Lei da Destruição, quando ele discute infanticídio, pena de morte e duelo; no capítulo sobre Lei do Trabalho, ao relacionar civilização e obrigatoriedade do trabalho... E em outras partes desse mesmo livro, como quando Kardec e os Espíritos tratam do egoísmo humano, das penas, gozos e consolações.
Também em A Gênese e em algumas edições da Revista Espírita, Kardec traz referência à civilização. Em tempo, uma boa indicação de leitura é o texto intitulado "Horrível suplício de um negro", que reflete sobre a barbaridade de se linchar uma pessoa acusada de um crime. Enfim, a discussão em torno da civilização e, por tabela da barbárie, tem espaço nas discussões filosóficas propostas pela Doutrina Espírita.
Que proveito podemos tirar desse debate?
A principal lição - e certamente a mais dolorosa aos egos orgulhosos - é de que estamos muito longe de vivermos uma civilização plena. A moral rasteira que nos norteia impede-nos. Chega, pois, a ser ridículo o ar de superioridade que muitos assumem simplesmente por gozarem de um verniz social... Tolos! Somos tão tolos!
Vivemos à sombra da indiferença que mata de fome e sede milhares de pessoas todos os dias. Somos movidos pela ganância e o individualismo que autorizam atrocidades. Escondemo-nos por trás da máscara da hipocrisia de leis que institucionalizam a violência. Vivermos, mais barbárie que civilização!
Vivemos à sombra da indiferença que mata de fome e sede milhares de pessoas todos os dias. Somos movidos pela ganância e o individualismo que autorizam atrocidades. Escondemo-nos por trás da máscara da hipocrisia de leis que institucionalizam a violência. Vivermos, mais barbárie que civilização!
É provável alguém dizer que o egoísmo precisa ir até seu ápice, para que se percebam seus danos… que o mal precisa aparecer para que conheçamos o bem. Que esse estado de coisas serve ao nosso aprendizado. De fato, não contesto tais argumentos. Mas as boas lições não nos chegam somente pela dor e pelo sofrimento...
O amor é o caminho mais bonito para o aprendizado humano! Podemos começar por ele. Afinal, como diz o poeta mineiro: amar se aprende amando!

Muito interessante essa abordagem, a partir da questão do debate sobre as teorias evolucionistas. Podemos dizer que há vários sentidos de evolucionismo, assim encontramos perspectivas diferentes de evolução. Em K. Marx, por exemplo, há uma noção de evolução econômica e social. Mais recentemente, em Norberto Bobbio, em a Era do Direito, uma visão evolutiva das leis, como etapas na história da humanidade. Kardec opera na mesma lógica, dizendo que o homem evoluí para a civilização deixando a barbárie no campo social, jurídico, social e econômica. Baseado nisso, podemos concluir que chegaremos a um novo tempo, após esse, o mundo de regeneração, segundo Kardec. Nele deixaremos a barbárie dos tempos anteriores.
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