Senso comum, ciência e o desejo de verdade
(texto escrito por inspiração mediúnica)
Hoje em dia no
meio espírita, a profusão de informações desencontradas, associada aos jogos de
e pelo poder, origina discursos e atitudes hipócritas sobre a necessidade de se
pesquisar os fenômenos do mundo invisível, mais precisamente, os mediúnicos.
Logo, é fundamental àqueles que se propõem a construir uma conduta coerente com os paradigmas do Espiritismo reservar disposição para reflexões que sirvam de alerta e combate a essa armadilha tão bem engendrada e contrária ao avanço do saber espírita.
Logo, é fundamental àqueles que se propõem a construir uma conduta coerente com os paradigmas do Espiritismo reservar disposição para reflexões que sirvam de alerta e combate a essa armadilha tão bem engendrada e contrária ao avanço do saber espírita.
O véu da
ignorância, que se espessa com o orgulho e a vaidade, coloca em risco os
preceitos da Doutrina dos Espíritos ao mitificá-la. Desmerecendo o caráter
original e revolucionário de uma ciência filosófica que superou os métodos de
pesquisa da metafísica ao adotar o método experimental das ciências de
observação. Vai além! Deturpa os resultados obtidos e tão bem registrados na
obra organizada por Kardec; especialmente, os registros mais experimentais,
presentes em O Livro dos Médiuns, Viagem Espírita 1862 e nas edições da Revista Espírita.
Em suma, é frágil,
entre os adeptos da Doutrina, a compreensão de que o objeto de estudo do Espiritismo
existe não como fruto da imaginação humana, muito menos, como algo miraculoso.
Mas, como um elemento presente na natureza que forma o universo, e que se relaciona com as incontáveis variações da
matéria; da mais densa a mais sutil, da mais vulgar àquelas, por
nós, desconhecidas. A compreensão imatura da maioria dos espíritas torna-os
vacilantes, fazendo com que reajam, diante das coisas do Espírito, ora maravilhados, ora receosos ou cheios de puritanismos.
Paralelo a esse
dilema, mas numa retroalimentação, propagam-se, fora dos redutos espíritas, manifestações
da mediunidade, carregadas também de misticismo. A citar, como exemplo, as práticas
religiosas, ainda hegemônicas no Ocidente, que historicamente negaram a
comunicabilidade entre os Espíritos, entendendo-a como impossível ou como
demoníaca, e que vêm formalizando ritos cujo princípio é medianímico. Muito
embora não se utilizem do termo mediunidade
e nem de seus derivados. É o caso das sessões de cura em espaços católicos
ou das chamadas “revelações” em cultos das igrejas protestantes.
Quem dera a
universalização do conhecimento sobre o mundo espiritual acontecesse na mesma
velocidade com que acontecem as manifestações espíritas (mediúnicas)... Mas a realidade é
sempre bem mais complexa do que a capacidade intelectiva humana e nossa
evolução espiritual – que comunga com o progresso moral e intelectual – ainda
engatinha. Nesse cenário, a proliferação de tais práticas longe de naturalizar
os fenômenos, concorre para ampliar a aura de fantástico, de sobrenatural no
que deveria ser tratado com naturalidade. Ademais, a necessidade de tudo
explicar, de tudo conhecer (tão própria do ser humano) faz brotar explicações
simplórias que mais confundem do que esclarecem.
É até
compreensível que explicações reducionistas sobre os fenômenos medianímicos se
originem fora da seara espírita dado o contributo que a Doutrina trouxe para
desvendar a espiritualidade. Mas, quando elas se formam ou encontram eco no
seio espírita é preciso fazer um chamado para que se volte a vista aos pilares
do Espiritismo que se fundam na construção de conhecimentos, através de
observação e verificação criteriosas, fundadas nos princípios científico-filosóficos
e morais do Consolador Prometido. Mas também dispostas ao embate sincero de
ideias que busquem ampliar de forma séria a compreensão que temos sobre o mundo
espiritual.
Entretanto, este
apelo – tão enfatizado na obra organizada por Kardec – não reverbera de maneira
fiel. Muito embora seja justo dizer que o movimento espírita tem como prática o
estudo, através de grupos, cursos, palestras, seminários, congressos... e que
há uma atmosfera de estudo e pesquisa formada. Todavia, sua eficácia é aparente
– haja vista a superficialidade de tantas discussões e a eleição de
especialistas, venerados como detentores do conhecimento. Por que isso acontece?
É possível que se
justifique esse estado de coisas pelo comodismo ou incompetência da maioria que
estranha o fazer científico e as elaborações de cunho filosófico. Há, ainda, a
tentação de culpabilizar os obsessores, contrariando a via de mão dupla que há
em qualquer processo obsessivo. E aí, todos eles se transformam em culpados: os
obsessores do trabalhador espírita, da casa; os inimigos do Espiritismo...
Existem até aqueles que encontram desculpas “no desejo” da espiritualidade de que
não se avance ou que seja moroso o progresso; como se dela também não fizessem
parte.
A grande questão
não é a falta de estudo ou indisposição para verificações mais sistematizadas
das manifestações mediúnicas. Não é a preguiça por si só que gera esses
equívocos! Tampouco uma suposta má vontade da espiritualidade ou a
inexperiência daqueles que optaram por viver sob a égide da Doutrina. Há uma
trama mais ardilosa que rasteja pelo cotidiano das casas espíritas,
alimentando-se das incongruências humanas e contribuindo para a desarmonia que
emperra a disseminação do Espiritismo como uma práxis que se constitui não de modo particular, restrita a um grupo
específico. Mas como práxis de toda a
humanidade.
Ignorando por
completo o alerta evangélico sobre o germe de tal intriga, presente na máxima “fora da verdade não há salvação”, muitos espíritas assumem atitudes arrogantes,
dissimulando as tentativas de perpetuar seus hábitos e maneira de conceber os procedimentos
nas reuniões mediúnicas, por exemplo. Mas, deixam as máscaras caírem quando se sentem ameaçados por
possíveis questionamentos inerentes à prática científica. Revelam o pavor de
serem contraditos não por forjarem o fenômeno – há sim, na maior parte das
vezes, manifestações autênticas – mas, por verem escoar de suas mãos o status
de quem conduz o leme. Visto que o obscurantismo é ferramenta importante a quem
pensa em ditar condutas.
Esquecem-se de
que, embora compartilhem o mesmo barco, o navegar é solitário. Afinal, o
esclarecimento sobre os fenômenos mediúnicos, com o qual se adentra de maneira
mais lúcida o mundo espiritual de que também fazemos parte, tem como propósito
o autoconhecimento. Este olhar para si, que deve ser contínuo, franco e
corajoso, é que nos faz construir a estrada em direção a Deus. Somos, pois, a
estrada que construímos. E nela, Deus está.
Abandonemos,
então, os falsos discursos e tomemos como bússola a moral do Cristo, atentos ao
postulado que diz: “todo aquele que se eleva será rebaixado”.

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