Os animais têm alma?!



Para falar sobre as "almas dos animais", vamos refletir primeiro sobre a concepção de alma para a Doutrina Espírita. Lembramos que, ao longo da história do conhecimento humano, a palavra alma ganhou uma série de conceituações. Fruto da nossa linguagem pobre, que utiliza uma mesma palavra para expressar coisas diferentes; sentidos ou ideias distintas.



Kardec, por sinal, vai falar muito bem sobre as diferentes acepções da palavra alma na Introdução de O Livro dos Espíritos, explicando como cada um dos significados estará correto segundo cada ponto de vista apresentado. É lá também que ele já apresenta a definição de alma, que será adotada pelo Espiritismo. Alma é, pois, “um Espírito encarnado, do qual o corpo não é senão um envoltório.”. Esta definição também está na questão 134.

Mas, o que significa dizer que a alma é um Espírito? 

Significa dizer que “a alma é um ser moral, distinto, independente da matéria e que conserva sua individualidade depois da morte”. Esta explicação também está na Introdução de O Livro dos Espíritos. Em outras palavras, a alma, entendida como Espírito, é um ser exclusivo, dotado de raciocínio, de criatividade. Mas, principalmente, é um ser que sabe distinguir o bem do mal, ou seja, a alma é um ser cuja consciência é regida por uma moral. Oxalá que esta moral, que rege nossos pensamentos e atitudes, seja a moral de Jesus Cristo!

As almas, portanto, somos nós: os seres humanos (um ser formado por um Espírito (alma), corpo orgânico e perispírito). E, como reconhecer um ser humano? Como distinguir o ser humano de um animal? – pergunta Kardec. “Reconhecei o homem pelo pensamento de Deus.”; diz-nos os Espíritos na questão 592. Afinal, “a espécie humana é aquela que Deus escolheu para a encarnação dos seres que podem conhecê-Lo.”, completam os Espíritos mais adiante, na questão 610.

Mas, e quanto aos animais? O que dizer deles? Afinal, não precisamos de muito esforço para perceber que há sinais de inteligência nos animais... Alguns, aliás, parecem bem mais inteligentes e educados do que certos homens e mulheres... Voltamos, assim, à pergunta inicial que fizemos: “os animais têm alma?”. Por sinal, Kardec também levantará essa indagação.

Na questão 597, ele pergunta: 
Visto que os animais têm uma inteligência que lhes dá certa liberdade de ação, há neles um princípio independente da matéria? 
Sim, e que sobrevive ao corpo. Eis a resposta dos Espíritos. 

Kardec insiste: 
Esse princípio é uma alma, semelhante à do homem? 
É também uma alma, se quiserdes; isso depende do sentido que se dá a essa palavra; ela, porém, é inferior à do homem. Há entre a alma dos animais e a do homem tanta distância como entre a alma do homem e Deus.

Assim, para a felicidade dos que convivem com os animais e também para aqueles mais afoitos, podemos dizer que os animais têm alma. Mas, só podemos dizer isso, porque a palavra alma tem múltiplos sentidos. E como nos lembram os Espíritos, na questão 144: “a palavra alma é tão elástica que cada um a interpreta ao sabor das suas fantasias.”. 

Daí, eu não me espantaria se soubesse de gente falando de expiação dos animais ou até de manifestação mediúnica. De repente, um finado cachorro se comunicando por psicografia, um gato voltando como rato para expiar suas faltas... A imaginação humana é muito fértil. Tão fértil que nos coloca em risco... 

É por isso que precisamos atender ao chamado da razão.

Os animais têm alma, essa alma rudimentar de que nos falam os Espíritos, porque há nos animais uma espécie de inteligência que perdura após a morte. E ainda, segundo os Espíritos na questão 598, “a alma dos animais conserva sua individualidade, mas não a consciência do seu eu. A vida inteligente permanece latente.”. Ou seja, os animais são inteligentes, mas essa inteligência que eles têm – que claro, é bem aquém da inteligência humana – serve-lhes, exclusivamente, para satisfazer as necessidades físicas e proverem a conservação.

Por sinal, Kardec comenta que: se alguns animais “são susceptíveis de certa educação, seu desenvolvimento intelectual, sempre fechado em limites estreitos, é devido à ação do homem sobre uma natureza flexível, porque não tem nenhum progresso que lhe seja próprio.” (questão 593). Em outras palavras, o progresso a que as almas dos animais estão submetidas não é pela vontade deles, mas pela força das coisas, porque os animais não têm livre arbítrio eles não raciocinam para fazer suas escolhas. E se eles não fazem escolhas, eles não acertam, mas também não erram. 

Assim, não existe expiação para os animais. Eles não sofrem para expiar seus erros... Eles não reencarnam. Mas, o princípio inteligente que há neles - ou seja, a sua alma - volta a encarnar.

O progresso, intelectual e moral, é reservado ao homem, que precisa se esforçar para alcançá-lo. Esse progresso, que nos fará um dia conhecer Deus, exige de nós, seres humanos, muito trabalho. Exige-nos esforço para não cairmos nas más paixões; esforço para seguir as leis de Deus. Esse progresso exige de nós o desejo e a vontade de fazer o bem. Esse desejo e essa vontade não estão presentes nos animais, porque eles não têm consciência moral, ou seja, eles não têm a capacidade de distinguir o bem do mal.

Agora, já sabendo que os animais possuem uma espécie de alma, bem rudimentar e muito diferente da alma humana, eu gostaria de fazer uma pergunta: Por que queremos tanto saber se os animais têm alma? Por que queremos saber se eles reencarnam?

É possível que a resposta para as minhas perguntas seja a curiosidade humana. Se for isso, é benéfico o motivo, afinal, a curiosidade nos impulsiona a descobertas, estimula nosso raciocínio e nos ajuda a desenvolver nosso intelecto. Mas, penso eu que há outros motivos que nos estimulam a vontade de saber se os animais têm alma, se eles reencarnam... Esse motivo já não é nobre, pois ele se baseia no egoísmo que ainda alimentamos.

Queremos que o cachorrinho, o gatinho que criamos - com quem convivemos e que morre, na maioria das vezes, antes de nós - volte para perto da gente. Que renasça em outro cão ou gato e seja novamente o nosso animal doméstico... Ou que esteja nos esperando, no mundo espiritual, quando desencarnarmos... Sejamos sinceros. Há essa vontade íntima, se não em todos, pelo menos na maioria... Há em mim, confesso. 

Confesso até mais: eu já fantasiei – digo fantasiei, porque não tenho nenhuma comprovação racional que me garanta que seja verdade – que minha cadela Princesa (Prince Mary), uma pequenez que viveu comigo 11 anos, tenha voltado como Bellinha (Ana Belle Christine), uma pinscher que também viveu comigo mais 11 anos. Confesso ainda que sonho em reencontrar, depois que eu morrer, todos os animais que já tive... e olha que tive muitos. Sou protetora de animais.

Mas, o fato é que, mesmo protegendo os animais, mesmo sendo sensível à causa da proteção animal, meu amor por eles ainda está muito condicionado... Ainda não consigo amar toda a natureza, com sua grande diversidade de fauna, e de flora também! Porque quem ama cuida... E sei que muitas vezes desrespeitei a natureza... Ainda desrespeito. Espero, porém, viver o dia em que eu, aliás que todos nós, possamos realmente amar os animais e a natureza como um todo. Quando isso acontecer, já teremos alcançado um patamar evolutivo bem mais elevado.

Quando esse dia chegar, como nos inspiram os Espíritos na questão 607, teremos reconhecido “a grandeza de Deus nessa harmonia admirável que torna tudo solidário na natureza.”, porque do átomo ao arcanjo tudo está interligado. E estamos todos nós interligados, porque o princípio inteligente que se transformou em Espírito, ou seja, que nos fez surgir, é o mesmo princípio inteligente que está presente nos reinos mineral, vegetal e animal. Princípio este criado por Deus, que é a Inteligência Suprema, a Causa Primária de todas as coisas.



 



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