Reflexões Iniciais sobre Política e Espiritismo
Texto base da apresentação de Klycia Fontenele no V Encontro do Coletivo Girassóis – Política e Espiritismo, realizado dia 16 de fevereiro de 2019, no Cefa (Centro Espírita Francisco de Assis).
A leitura superficial de uma obra tão
vasta e densa como é a obra espírita, deixada por Allan Kardec, resulta, muitas
vezes, em interpretações limitadas ou, até mesmo, equivocadas. É por isso que
inicio fazendo um chamado, a todos os presentes, para que se debrucem sobre as
obras que fundamentam a Doutrina Espírita, através de um estudo contínuo e
sincero. Já esta exposição sobre Espiritismo e Política tem como objetivo
discutir questões sem, contudo, fechá-las, pois é necessário que cada um leia,
reflita e faça seu próprio veredicto.
Allan Kardec, algumas vezes em edições
da Revista Espírita e até no regulamento que elaborou para a Sociedade
Parisiense de Estudos Espíritas, orientou que as Sociedades Espíritas não se
envolvessem com a política. Evitassem os jogos de poder, o partidarismo e as
disputas que dividem os homens. Por outro lado, outras vezes, também em edições
da Revista Espírita e em questões de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec não hesitou
em perguntar e publicar as respostas dos Espíritos sobre questões sociais que
inflavam as discussões nas arenas, pública e política, de sua época.
É possível encontrar, por exemplo,
perguntas e reflexões sobre a diferença entre homens e mulheres. Sobre as
diferenças de raças. Desigualdades sociais. Questões sobre a liberação do voto
para as mulheres, um assunto discutido na época nos Estados Unidos e Inglaterra...
Ou ainda questões sobre o desenvolvimento industrial da Europa e a situação de
vida dos trabalhadores. Também está no regulamento da Sociedade Parisiense que
esta deve, ao estudar os fenômenos espíritas, refletir sobre sua aplicação nas
ciências morais, psicológicas e históricas.
Diz assim o regulamento da Sociedade
Parisiense de Estudos Espíritas em seu capítulo I – do Objetivo e Formação da Sociedade:
Artigo 1 – A Sociedade tem por objeto de estudo todos os fenômenos relativos às manifestações espíritas, e sua aplicação às ciências morais, físicas, históricas e psicológicas. As questões políticas, de controvérsia religiosa e de economia social, nela são interditas (O Livro dos Médiuns - CAP XXX Regulamento da Sociedade parisiense de Estudos Espíritas).
Artigo 1 – A Sociedade tem por objeto de estudo todos os fenômenos relativos às manifestações espíritas, e sua aplicação às ciências morais, físicas, históricas e psicológicas. As questões políticas, de controvérsia religiosa e de economia social, nela são interditas (O Livro dos Médiuns - CAP XXX Regulamento da Sociedade parisiense de Estudos Espíritas).
Já
no livro O que é Espiritismo, Kardec define Espiritismo como uma ciência de
observação que é ao mesmo tempo uma doutrina filosófica. Dirá ele: “Como
ciência prática, o Espiritismo consiste nas relações que se podem estabelecer
com os Espíritos; como filosofia ele compreende todas as consequências morais
que decorrem dessas relações.”. Em outras palavras, a Doutrina Espírita ao
propor um estudo sistemático do mundo dos Espíritos, quer com esse estudo,
compreender o sentido de nossa existência para que tal compreensão impulsione,
em cada um de nós, mudanças em nossa alma que nos melhorem moralmente. Desse
modo, Kardec, com a ajuda dos Espíritos, refletiu sobre a condição humana, do
ponto de vista da individualidade da alma, travando um diálogo estreito com o
convívio coletivo.
Parecerá
contraditório ora dizer que as Sociedades de Estudos Espíritas não se envolvam
com política e ora publicizar questões que vão ao encontro de diversas
discussões políticas. Mas, meus amigos, não há contradições aí! Quando Kardec se preocupa e nos orienta a não permitir que os jogos atrozes da política nos
envolvam, desviando-nos de nosso objetivo maior, sua preocupação é justa! Preocupação
esta, compartilhada por muitos cientistas, que é a de manter a independência e
a autonomia da pesquisa científica.
Para
que não corrêssemos o risco de desviar os resultados de uma pesquisa tão
delicada e difícil de ser feita, como é a ciência espírita, ele propôs esse
distanciamento. Além disso, o Espiritismo traz em sua origem as ideias de universalidade
e da fraternidade, tão esquecidas na arena política... Há também no cerne do
Espiritismo, um objetivo de que o ser humano melhore moralmente. E onde
refletirá a melhora moral senão na mudança de nossas atitudes e de nossa
conduta diante do outro?!
Em
O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta na questão 132, qual o objetivo da
encarnação. E os Espíritos respondem que o objetivo de estarmos aqui é – ao
viver as vicissitudes da matéria, da existência corporal – evoluir para
alcançar a perfeição. Mas, complementam dizendo que a encarnação também tem um
segundo objetivo que é dar ao Espírito a condição de ele deixar sua
contribuição para a obra da criação. Ou seja, se a primeira tarefa do ser
humano é se melhorar, a sua segunda tarefa é trabalhar pela harmonia do mundo
em que vive.
Inclusive,
porque, como nos explicam os Espíritos, existe uma lei moral, chamada lei da
sociedade. Segundo esta lei, o ser humano foi feito para viver em sociedade,
porque sozinho ele não consegue progredir. É preciso o contato com o outro para
que aconteçam as condições para o nosso progresso, e nesse contato, o ser humano
deve se ajudar mutuamente.
Ora!
A política deve ser compreendida como um campo de atuação da coletividade, e
não somente como um espaço de disputas, partidária ou eleitoral. Precisamos
pensá-la em seu sentido lato! Quando
convivemos em sociedade, nossas relações individuais e coletivas sofrem
interferências mútuas. Essas relações, grande parte estabelecidas na e pela
polis, ou seja, na e pela cidade, criam um conjunto de ideias, práticas e
hábitos que têm o objetivo de construir uma vida em harmonia. Grosso modo é o
que chamamos de política.
Olhando
o contexto do movimento espírita brasileiro, precisamos ser honestos e afirmar
que nossas casas espíritas estão há anos luz das sociedades de estudos à época
de Kardec. Esquecemo-nos de vivenciar a principal razão de existir de tais
grupos que é refletir, observando e pesquisando a vida espiritual. Não vou
entrar no mérito se hoje estamos melhores ou não, até porque sei que há um
trabalho de acolhida e de consolo, feito por milhares de espiritas e que
precisa ser reconhecido.
Mas
sei também e não posso ignorar os riscos que corremos quando não se usa da criticidade
e do olhar científico para refletir sobre os diálogos que travamos com os
Espíritos! Quando colocamos para escanteio a proposta filosófica da ciência
espírita e a tentamos transformar em uma prática religiosa com ritos, mesmo que
estes nos cheguem camuflados.
O
Girassóis – responsável por promover o debate que provocou a escrita deste
texto – não se constitui como um centro espírita. Mas, como um Coletivo em que
indivíduos, com anseios semelhantes, resolveram se organizar para construir
estratégias de intervenção social. Deixemos, então, a condução dos centros
espíritas aos seus dirigentes e nos concentremos, agora, em pensar sobre nós.
Falarei,
especificamente, sobre duas leis divinas que regem a lógica da condição de vida
de cada ser humano que habita este planeta: a lei de causa e efeito e a lei da
reencarnação. É através dessas leis, que explicamos as diferenças entre os
indivíduos, sejam físicas, intelectuais, de gênero, raça, sociais etc. Por
ambas, encontramos mecanismos não para nos acomodarmos, mas para não
transformar em revolta infrutífera as nossas reações diante das dificuldades
por que passamos.
Mas,
diferenças entre indivíduos não são sinônimo de desigualdade social! Por sinal,
também em O Livro dos Espíritos, na questão 806, Kardec ao perguntar se as
desigualdades sociais fazem parte de uma lei de Deus, recebe uma resposta
objetiva dos Espíritos: Não. A desigualdade social é obra do egoísmo humano. E
se é fruto do homem, a desigualdade social poderá desaparecer de nosso planeta!
Mas, se a desigualdade social é resultado do nosso orgulho e do nosso egoísmo
significa que há um componente moral a ser modificado para que possamos viver
em uma sociedade realmente justa.
Aí,
voltamos ao objetivo primeiro da doutrina: através dos diálogos com os
Espíritos, construir um conhecimento crítico que nos permita mudanças em nossa
moralidade. É por isso que se deve dar importância a toda e qualquer tarefa
humana – da mais simples, da mais insignificante do ponto de vista coletivo a
de maior proporção. Porque cada atuação do ser humano que contribua para a
melhora de sua alma, contribuirá para melhorar o planeta.
Assim,
daquela pessoa que vive distante dos conflitos políticos, até o maior dos
filósofos ou dos estadistas terá responsabilidade com a vida na Terra. Afinal,
a vida no planeta reflete o momento evolutivo dos seus habitantes. Aonde for o
ser humano vivenciar sua existência, terá ele, por obrigação, a busca
incansável por melhorar a sua moral. Tarefa individual, mas não solitária,
posto, necessitarmos da vida de relações.
Se
o Coletivo Girassóis se dispõe a atuar no campo político, precisa se vigiar
para não cair nas artimanhas do poder, para não cair nos jogos das tantas
disputas sem ética. Precisamos pensar e planejar cada passo do nosso Coletivo,
mas principalmente, precisamos pensar cada passo individual! Daí, a necessidade
da reflexão evangélica, não somente como um consolo às dores, mas como um
alimento da consciência. Haja vista ser Jesus o nosso maior modelo e guia. E
que bom o Evangelho já esteja fazendo parte de nossos hábitos em grupo desde
que alguns girassóis bem inspirados trouxeram a ideia de realizá-lo diariamente
em nosso grupo de WhatsApp!
É
também por isso a necessidade de observarmos as obras fundamentais da Doutrina Espírita,
através de um estudo sincero, aprofundado e sistematizado. Precisamos estar
seguros de nossa fé raciocinada! Sem isso, seremos um coletivo como qualquer
outro que, por mais que tenha boas intenções, entra na disputa política somente
com o olhar limitado da matéria, que mais angustia do que dá esperança! Temos,
ainda, o desafio de provocar reflexões para mudanças de atitudes em nós e em
nossa sociedade; de nos depararmos com o diferente, divergir, sem, contudo,
construir uma barreira de ódio e intolerância. Afinal, amar o próximo ainda é o
primeiro mandamento!
Por
fim, não esqueçamos: a Deus o que importa são as boas intenções que movem
nossas escolhas. Enquanto este grupo trouxer, como norte, as intenções no bem,
estaremos amparados pelos bons Espíritos. Obrigada!
Reflexões
pontuais provocadas pelo debate
“Os Espíritos são as almas dos homens.”
– esta frase, muito conhecida de Allan Kardec, representa talvez a principal
constatação, o principal resultado de suas pesquisas sobre as manifestações
espíritas. Quando o sentido desta frase for realmente assimilado e introjetado
em nossas almas, causará uma revolução sem precedentes na humanidade! Afinal, ao
dizer que os Espíritos são as almas dos homens, Kardec comprova a existência de
uma alma imortal. A imortalidade da alma, por sua vez, dá ao tempo uma dimensão
longitudinal tão infinita que esfacela o conceito temporal...
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Jesus nos disse por onde começar: amando
o próximo como a si mesmo, ou seja, precisamos nos livrar dos nossos egoísmos,
orgulhos e vaidades. Como fazer isso?! Bem, amigos, não há receita pronta para
o caminho que iremos seguir. Além de viver, refletir sobre a vida, construir
conhecimentos e continuar a viver...
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Existirá poder maior do que aquele que
resulta da autonomia, construída pelo conhecimento racional, que orienta o
livre arbítrio, o livre pensar e as tomadas de decisão? O Espiritismo fala
disso desde o seu início, entendendo o poder não como fonte de subjugação, mas
como reflexo da autonomia humana! Nesse sentido, a educação do Espírito se
mostra como importante ferramenta na construção dessa autonomia. Tema este que
devemos nos debruçar em um momento oportuno.

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