Reflexões para o ano que se anuncia...



É bem comum, a cada final de ano, pensarmos sobre o ano que finda e projetarmos expectativas, sonhos e planos para o ano vindouro. Fazer isso é bom! Afinal, pensar sobre o que fizemos ao longo do ano, avaliar o que houve de bom e o que precisa ser melhorado pode nos ajudar a depurar nossas ações, para tentarmos ser melhores e, consequentemente, fazer um ano melhor.


Santo Agostinho fazia esse exame de consciência uma vez por dia. Toda noite, antes de dormir, ele passava o dia a limpo, observando seus atos e pensando a melhor maneira de corrigir seus erros e chegar mais perto de Deus...

Mas nós não costumamos fazer isso. Pensar no bem que fizemos ou deixamos de fazer é muito difícil, porque exige de nós um olhar severo para nós mesmos. Sim, um olhar severo, pois – na condição evolutiva em que nos encontramos – ao procurar o bem que fizemos, nós nos deparamos também com nossos erros e falhas morais. E em geral, costumamos fugir desse exame de consciência.

Por sinal, temos uma ideia equivocada do que seja indulgência, porque usamos de indulgência para conosco e não é esta a proposta! Devemos ser indulgentes com o outro, porque não cabe a nós julgar e muito menos condenar os erros do próximo. Nós não sabemos o que ele carrega no íntimo de sua alma, então, não temos condições de sermos justos quando decidimos julgá-lo. Além disso, não temos autoridade moral para julgar os atos de ninguém... Só podemos julgar os nossos próprios atos.

Mas, não costumamos fazer isso, porque tirar a máscara e olhar fundo em nossa alma é um processo doloroso. Dói, e muito. Mas também é o caminho para a felicidade! Porquanto, ao reconhecer nossas falhas morais, temos a chance de nos arrependermos de nossos erros, tentar repará-los e mais! Temos a chance de não errar de novo e enveredarmos pelo caminho do bem.

E por que este seria o caminho da felicidade? Porque só há felicidade em Deus e só chegamos até o Pai, através do bem que praticamos.

2019 foi um ano muito conturbado. Muitos ânimos foram acirrados, muitas disputas dividindo as pessoas... Neste recapitular de nossas ações, precisamos pensar: até que ponto eu fui motivo de união ou desunião entre aqueles com quem convivo? Eis uma pergunta que nos desafia; cuja resposta mais sincera será quanto mais íntima ela for. Afinal, todas as vezes em que expomos nossos feitos aos outros, escorregamos em nossa vaidade e vestimos máscaras.

Então, que cada um se pergunte: 

Até que ponto eu fui motivo de união ou desunião entre aqueles com quem convivo? 

E guarde consigo (e Deus!) sua resposta, avaliando o que precisa fazer para ser melhor.

Mas, junto com o fim do ano, um novo ano se anuncia... Imagino que, se não todos, boa parte dos presentes leitores está pensando no que quer para 2020. Certamente, são planos de felicidade! De uma felicidade particular, eu diria... Por isso, gostaria de propor um plano coletivo. 

Um plano de felicidade coletiva!

Mas, como seria um plano de felicidade coletiva? Com esta ideia na cabeça, perguntei-me se Kardec teria deixado alguma mensagem de ano novo. Fui pesquisar e encontrei algumas referências. Entre elas, uma mensagem que Kardec escreveu aos espíritas de Lyon.

Em 1862, cinco anos após o lançamento de O Livro dos Espíritos (1857), ou seja, cinco anos do início do Espiritismo, Kardec respondeu uma mensagem que recebera dos espíritas lioneses.

Importante dizer que Lyon era uma das cidades francesas em que o Espiritismo mais se difundia. Lá, havia uma particularidade: muitos espíritas eram operários. Prova de que, se o Espiritismo nasceu entre letrados e intelectuais, logo, se espalhou por todas as camadas sociais, porque o Espiritismo rompe as barreiras de países, classes, de raças, posto ser uma doutrina universal.

Entre as felicitações e conselhos da mensagem de Kardec aos espíritas de Lyon, um trecho chamou por demais minha atenção:

“Reconhecei, pois, o verdadeiro espírita pela PRÁTICA DA CARIDADE em pensamentos, palavras e atos, e dizei a vós mesmos que aquele que em sua alma nutre sentimentos de animosidade, de rancor, de ódio, de inveja e de ciúme mente para si mesmo se deseja compreender e praticar o Espiritismo.”


Falar de caridade no meio espírita não é novidade para ninguém. Alguns até dirão que é chover no molhado. Afinal, o lema espírita mais difundido é “Fora da caridade não há salvação”. Por sinal, na mensagem a Lyon, Kardec lembra isso e reforça dizendo que: 

"Se houver fraternidade, não haverá sentimentos malévolos. Mas não pode haver fraternidade com egoístas, ambiciosos e orgulhosos, porque o egoísmo e o orgulho são os dois inimigos mortais da felicidade humana". E diz mais: se estivermos apoiados nas bases da caridade, estaremos em paz. Uma paz que começará em nós e se estenderá para a vida coletiva.

Nada novo até aqui. Por isso, eu pergunto:

– Como podemos ser caridosos?


Eis a resposta. Por sinal, este conselho é ainda mais antigo... Jesus nos fala sobre esse amor a Deus e ao próximo há mais de dois mil anos... Mas, nós somos teimosos e seguimos sem amar.

Agora, o que isso tem a ver com nossas expectativas para 2020? Pensemos...

Costumamos depositar os nossos sonhos de felicidade nos outros, nas coisas e algumas vezes até em nós mesmos (tendo como referência somente a atual existência)... Eis um erro que cometemos. Precisamos depositar nossos sonhos em Deus, da mesma forma que precisamos depositar em Deus o nosso amor.  

Deus é a verdade imutável. Ele é eterno, perene... Deus nunca nos deixa nem mesmo quando cometemos as maiores atrocidades e nos afastamos Dele. Nem mesmo quando morremos, Deus nos deixa... Deus é o tempo todo em nossas vidas, em nós. Então, se há algo sólido em nós, esse algo é a presença de Deus. Ao apostar em Deus, temos a certeza do sucesso, da felicidade que tanto queremos...

Mas, o que significa apostar em Deus?

Significa aprender a amar. Mas, como podemos amar o que não conhecemos, o que não compreendemos? Aliás, como podemos pedir ajuda, auxílio, depositar nossas esperanças em algo que não sabemos explicar?! Afinal, quem de nós sabe dizer exatamente que é Deus?!

Os Espíritos nos deram uma definição de Deus tão imprecisa quanto é a linguagem humana: “Deus é a inteligência suprema, a causa primária de todas as coisas.” – dizem eles em O Livro dos Espíritos.

Com esta resposta, vemos como ainda é vaga a ideia de Deus que possuímos. Mas, não desanimemos! Os Espíritos também nos dizem: o que distingue o ser humano dos animais é a capacidade de pensar, de conhecer Deus.   

Pela lei divina de Progresso, sabemos que a evolução é contínua e quanto mais evoluímos, mais conheceremos Deus. Um dia, isso vai acontecer! Tenho fé! Embora, seja bom dizer que se a Lei de Progresso nos garante esse aprimoramento, sua celeridade depende de nossos esforços.

Pela lei (também divina) do Trabalho, o ser humano precisa se esforçar para vencer suas más paixões, para se aprimorar fazendo o bem e assim, conhecer Deus de verdade... Afinal, somos os seres inteligentes da criação. Inteligentes e morais ou seja, com capacidade de raciocínio, criatividade e com condições de distinguir o bem do mal.

Mesmo assim, como vamos aprender a amar o desconhecido? Aprender a amar Deus?!

Ora! Deus pensa em tudo! E dentro de nós, em nossas consciências, Ele se fez. Quando nos criou, Deus deixou em nós o desejo de bondade... Cada um de nós conhece um pouco de Deus – até mesmo aqueles que não acreditam nele – porque há em nós o gérmen da bondade, do amor... Esta semente é Deus, melhor, este é o DNA de Deus em nós.

Então, a melhor forma para conhecermos Deus é conhecendo a nós mesmos... É revendo cada um dos nossos atos, analisando nossos pensamentos, desejos e intenções... É passando a limpo a nossa consciência, fazendo isso todo dia, dia após dia...

Aqui, porém, encontramos outro problema... Como podemos nos conhecer realmente, se nós somos orgulhos e egoístas?! Se a ideia que temos sobre nós mesmos está deturpada por nosso orgulho e egoísmo?! Como fazer isso?!

A única forma é nos esquecendo de nós mesmos, através da caridade para com o outro...

Quando amamos o próximo, quando nos preocupamos, quando nos esforçamos para ver o outro feliz, colocamos de lado o nosso egoísmo, o nosso orgulho e aprendemos mais sobre o outro, porque estamos dispostos a amá-lo. E amando o outro, amamos a criação de Deus e, consequentemente, amamos Deus.

E ao amar conhecemos... e ao conhecer, amamos.

Agora, há muitas maneiras de fazer a caridade... Lembro, porém, mais um ensinamento dos Espíritos: a caridade, segundo Jesus, pode ser definida como Benevolência para com todos e com tudo, Indulgência para com as falhas alheias e Perdão das ofensas.

Proponho, então, que cada um aqui procure a sua maneira de ser caridoso em 2020! Este será nosso plano de felicidade coletiva!

Não precisamos pensar em grandes ações, tracemos apenas uma meta que possamos realmente cumprir. Não precisa ser nada grandioso, afinal, como disse Kardec aos espíritas de Lyon: as ideias que partem do coração são as que Deus escuta. Deus leva mais em conta a intenção do que o fato.

Sei também que é possível que em 2020, tenhamos grandes obstáculos por vencer... Dificuldades individuais, na família, no país e no mundo como um todo. Mas, procuremos ser humildes para depositar em Deus nossas esperanças e nossos pedidos de auxílio.

Por fim, lembrando ainda o que Kardec disse aos espíritas de Lyon, finalizo nossa reflexão para o ano novo, dizendo:

Aquele que não acredita em Deus é como o doente que não espera a cura. Já o espírita é como aquele que, doente hoje, sabe que amanhã estará curado.

Lembremos isso nos momentos difíceis que nos aguardam e deixemos que Deus seja o juiz dos sentimentos de cada um. Mas, se mesmo assim, ainda estiverdes em dúvida, fazei sempre o bem!


Comentários

  1. Muito bom texto,ótimas chamadas que nos remetem aos nossos compromissos conosco e com o próximo...Nós conseguiremos com a lealdade em nossas palavras e ações. Bela lembrança do texto de Kardec. Feliz novo ano pra nós.Bjss amiga.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Grata pelo comentário. Precisamos refletir sobre a condução que damos à nossa existência.

      Excluir
  2. Compartilhei em página espírita no face.

    ResponderExcluir
  3. Maravilhosa reflexão, querida Klycia, gratidão imensa por suas claras, intensas e belas reflexões..nossas almas são sedentas destas verdades humanas e do espírito. Obrigada e Feliz Ano Novo pra todas nós!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Grata pela leitura e feedback... necessito de reflexões também rs

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A Mecânica da Psicografia

Em tempos de pandemia pela covid19...

Civilizados, nós?!